 Sem medo de vencer
Importante aliado da saúde, o esporte ocupa um papel determinante na inclusão de pessoas com deficiência Por Sibele Oliveira
Limitações físicas ou mentais não privam pessoas com deficiência de sensações como fazer do tatame o palco de uma luta memorável ou vibrar com a tacada perfeita num campo de golfe. Mais do que transformar suor em conquistas, subir no pódio ou ganhar um troféu, a prática de esportes blinda o corpo contra o aparecimento de doenças, exercita a mente, minimiza diferenças e quebra preconceitos. O pensamento do poeta gaúcho Mário Quintana traduz o lema dos atletas especiais: "Eu não tenho paredes. Só tenho horizontes".
Antes de iniciar a jornada esportiva, é preciso enfrentar o medo, principal adversário de alguns aspirantes, como se pode observar na prática do judô para cegos. "O que percebemos é que inicialmente esse atleta apresenta um certo receio por não saber se há obstáculos, se vai se machucar. Depois que ele passa por esse momento de familiarização, começa a se sentir à vontade. Ele sente mais medo do ambiente do que da luta", explica Jaime Bragança, coordenador técnico da seleção brasileira paraolímpica de judô. Com a percepção mais desenvolvida, outros sentidos - a audição e, principalmente, o tato compensam a ausência da visão, e os reflexos ficam mais rápidos. "Através do tato, eles conseguem prever ataques e antecipar a defesa, pela movimentação do oponente", esclarece.
O estudante Wadson Cruz, 18, começou a lutar na categoria até 60kg a menos de um mês e comprova que a adaptção não é tão difícil quanto possa parecer. "Estou treinando há três semanas. Optei pelo judô porque é bom para a minha própria defesa, para a minha postura e atitudes. Medo eu não tenho porque conheço o lugar onde estou. Como é um jogo de corpo e estou segurando o quimono, após um deslocamento simples, já tenho a percepção, pelos movimentos". O judoca perdeu totalmente a visão aos 11 anos, ao colidir o seu rosto com o de um colega de escola, o que ocasionou o descolamento de suas duas retinas. Com os pés no chão, ele adianta seus planos para o futuro. "Se eu tiver competência, posso me profissionalizar, caso contrário fica como hobby mesmo", diz.
As regras da modalidade convencional e do judô para cegos são similares. Em ambos, vence o competidor que aplicar um "ippon" (equivalente a um nocaute) ou atingir a maior pontuação com os golpes "wazari", "yuko" e "koka". O que muda é que no início da luta os atletas cegos seguram no quimono um do outro, a competição é interrompida caso os lutadores percam o contato, não há punição quando saem da área demarcada, e o lutador totalmente cego é identificado com um círculo vermelho nas duas mangas do quimono. Há, ainda, uma classificação oftalmológica dentro da modalidade adaptada: B1 para os totalmente cegos, B2 para os que têm a percepção de vultos e B3 para os que conseguem definir imagens. Entretanto, não há separação de categorias, ou seja, todos podem competir entre si.
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