Cidade
 A violência em duas rodas
As sequelas da imprudência no trânsito brasileiro Por Miriam Temperani
As estatísticas são as piores possíveis. Por dia, cerca de 30 pessoas morrem devido aos acidentes com motos no Brasil, chegando a 10 mil mortos por ano. Segundo o Ministério da Saúde, a maioria das vítimas tem entre entre 15 e 39 anos de idade. Pelo baixo valor de alguns modelos populares e a oportunidade em transformar esse meio de transporte em renda, como o trabalho de motoboy e mototáxi, a frota de motocicletas cresceu muito nos últimos anos, pulando de 5,4 milhões para 12 milhões. Sua concentração está nas regiões Sudeste e Nordeste do País, que hoje detêm juntas mais de 8 milhões de motos, segundo o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran). Só no Estado do Ceará a frota cresceu 89,5% nos últimos cinco anos, o que gerou maior número de acidentes e infrações no Estado. Em São Paulo, são registrados diariamente cerca de 42 acidentes envolvendo motos. No Rio de Janeiro são 20 por dia.
Uma má-formação nas autoescolas aliada à imprudência dos condutores e à péssima conservação de vias são fatores decisivos para o chocante número de acidentes que, quando não fazem vítimas fatais, levam as pessoas a adquirirem lesões graves, como traumatismo craniano, lesão medular e amputações, que geralmente não são contabilizadas pelas pesquisas oficiais.
A Clínica de Lesão Medular da AACD realizou uma pesquisa através de seu formulário de triagem entre janeiro e setembro de 2009. Dos 157 casos atendidos, constatou que 38,6% foram de pessoas que sofreram acidente de trânsito. Desse total, cerca de 61,4% foram de acidentes motociclísticos, a maioria homens entre 15 e 39 anos, que sofreram lesão medular, causando paraplegia e tetraplegia.
A mudança de vida
O ex-motoboy Alan Primo, 28 anos, acidentou-se há dez anos enquanto fazia uma entrega de documentos no porto de Santos e ficou paraplégico. "Com a colisão, o baú da moto bateu nas minhas costas, quebrando minha coluna". Na época, Alan havia acabado de conseguir um emprego registrado e se aposentou após o acidente, mas não desanimou. Com a fisioterapia na AACD, conseguiu recuperar 40% dos movimentos da perna esquerda e 5% da direita. "Pratiquei natação, musculação e não deixei a depressão tomar conta, pois eu tenho uma filha que na época do acidente tinha só um ano e meio e precisava de mim". Com ajuda e apoio dos amigos e familiares, Alan passou a ver a vida de outra forma, voltou a estudar e hoje trabalha em um banco. "Passei a fazer mais coisas até do que quando andava e não me incomodava com as pessoas olhando. A vida é bela e curta e tem que ser aproveitada em todos os sentidos", reflete.
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