 Educação: A porta de escape
A instituição Corbi oferece opções culturais e educacionais para as crianças carentes do subúrbio do Rio Por Victor Ferreira Fotos Divulgação Movimento Re(ha)bilita Rio
Uma trincheira feita por voluntários de todas as classes sociais é aberta de segunda a sexta-feira para salvar parte da juventude que mora em uma região onde vive cerca de 1% dos habitantes cariocas, mas são registrados 40% dos crimes cometidos na cidade do Rio de Janeiro. Sob o jugo da ditadura do tráfico do Complexo do Alemão, são muitas as crianças e os adolescentes com problemas de aprendizado e deficiência intelectual que chegam ao Centro de Orientação e Reabilitação Beneficente de Inhaúma (Corbi) tendo o fuzil como única referência de poder. “É este o modelo fracassado que vocês querem seguir?”, pergunta vez e outra a seus alunos Fátima Denise da Silva Monteiro, coordenadora técnica, psicóloga e sexóloga do Corbi, na sede instalada em um dos sete bairros vizinhos ao Alemão, na zona norte.
A combinação entre ambiente familiar degradado, carência de serviços de saúde e a violência da vizinhança são os principais causadores dos males atacados pelo Corbi: os distúrbios de comunicação e aprendizagem, sobretudo o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), explica Denise. São 300 menores atendidos, desde os 4 até os 18 anos, alguns simplesmente em situação de risco social. No Corbi, as crianças são divididas em turmas de acordo com a faixa etária e o distúrbio que apresentam. O especialista mais requisitado no centro é o pedagogo.
“Na escola convencional, a criança tem de aprender de acordo com a metodologia que dispõe. Aqui, é o contrário. Buscamos técnicas alternativas pedagógicas para a criança se recuperar”, conta Denise.
Como consequência dos problemas de formação familiar e convívio com a violência, quase todas as crianças atendidas dependem de tratamento psicológico. Neste caso, os profissionais do Corbi precisam de sensibilidade extra, pois nem sempre o tratamento se restringe às crianças. Os pais também são incentivados a frequentar a sala de aula, porque muitas vezes o problema do filho começa no leito familiar. Fonoaudióloga do Corbi, América Cavalcante explica que tratar dos distúrbios da fala e do aprendizado significa, mais que tudo, inclusão.
“Trabalhamos com a estimulação precoce, não esperamos a criança chegar aos 5 ou 6 anos, quando começa a escrever, para tratar os distúrbios da fala”, diz América sobre por que o tratamento pode começar aos 4 anos, quando muitos pais acham normal ver o filho trocar o som das palavras . “Às vezes percebemos que são os pais que falam errado também”.
Cristiane Miranda é mãe de Hugo, 10 anos, há quatro anos atendido pelo Corbi. No seu caso, os distúrbios da fala estavam além do normal e o desempenho escolar estava na curva descendente. O tratamento terapêutico, com fonoaudióloga e psicóloga, associado ao carinho de mãe deu resultado: “Sinto que ele se desenvolveu muito para a sua idade, está mais capaz de seguir a vida sem necessidade de apoio do Corbi. Agora, Hugo é até mais responsável do que o irmão mais velho.”
Uma das consequências mais graves da deficiência intelectual é a queda da autoestima. Em um ambiente social como o da favela, tal ingrediente é prato-cheio para a criminalidade.
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