 No escurinho do cinema
Possibilitar o acesso à cultura para a pessoa com deficiência é garantir inclusão social Por Priscila sampaio Fotos Douglas Daniel
Ir ao cinema é comum para todos? Sim, é comum, pelo menos nos festivais de filmes promovidos pelo Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB) de São Paulo e no do Rio de Janeiro. Cegos, surdos, pessoas com múltiplas deficiências podem se programar e escolher a sessão de sua preferência, pois além das telas, esses locais também têm estrutura de prédio acessível.
Um dos precursores dessa ideia é o Cinema Nacional Legendado. Com a iniciativa de Helena Dale, fonoaudióloga e fundadora da Associação de Reabilitação e Pesquisa Fonoaudiológica (ARPEF), foi criada a amostra de filmes brasileiros com as técnicas de closed caption e audiodescrição.
Esse programa, já existe há cinco anos e tem a preocupação de tornar acessível o filme nacional. "Percebemos que havia esse buraco na cultura nacional, pois os cegos e, principalmente, os surdos não tinham a possibilidade de assistir algo produzido no próprio país", explica Helena. Esse festival de filmes foi apresentado em São Paulo, no mês de outubro, e no Rio de Janeiro ocorre o ano todo.
O filme através das letras
O closed caption é uma legenda introduzida nos filmes nacionais. As descrições das falas ficam em cima da posição em que está o ator, indicando quem está falando. Além disso, a técnica também descreve o fundo musical, barulhos, como porta fechando, cachorro latindo, tiro, e informa o tom de voz, como sussurrando, emocionada, gritando e, assim, fazendo entender o que está acontecendo na cena, transcrevendo todos os sons. Esse método desenvolvido há pelo menos 30 anos nos Estados Unidos, e trazido para o Brasil pelo Centro de Produções de Legendas (CPL), que também faz parte da ARPEF e, em 2004, começou a ser patrocinado pelo CCBB do Rio de Janeiro.
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"Nosso primeiro objetivo abrir as portas do cinema para os surdos cegos" |
Segundo Helena, no primeiro ano que a CPL solicitou os longas-metragens para as produtoras dos filmes, levou 6 meses para a liberação, pois elas não tinham claro o objetivo do programa, mas no segundo ano a ideia foi aceita e hoje conseguem uma média de 60 filmes em 15 dias.
Escutar para se emocionar
Em 2007, foi a vez das pessoas com deficiência visual começarem a frequentar as salas de cinema. Produzido também pela CPL, a audiodescrição é um narrador que transcreve a cena do filme quando não há o som ambiente, informando para o cego o que está acontecendo, como pessoas andando no parque, brigas, fugas. O audiodescritor lê o roteiro do filme e grava as narrações. É fornecido um aparelho parecido com MP3 que possui fones de ouvido. Normalmente é utilizado um único fone, pois a pessoa pode ouvir a audiodescrição e o som ambiente do filme.
Um inconveniente é que a recepção da audiodescrição é feita por ondas de rádio. Na sala de cinema do Centro Cultural do Banco do Brasil, em São Paulo, é feita pela frequência FM, que é vulnerável a chiados e na primeira sessão, com o filme "O guerreiro Didi e a Ninja Lili", foram disponibilizados os aparelhos para o áudio, mas quase não se compreendia as falas em razão das interferências e chiados.
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